
Estava pensando em um nome para identificar a geração que nem tira mais os fones de ouvido, mesmo que precise conversar. Acabamos acostumando tanto, que em em curto espaço de tempo, passou a ser normal conversarmos com alguém com pelo menos 1 dos fones no ouvido (rs).
Geração Ipod parece um nome bem legal, mas para a minha surpresa, alguém já tinha pensado nisso antes (rs). Isso o que acontece quando não se lê todas as revistas sobre tecnologia. Bom, continuo com a minha meta de fundar um nome legal que será usado por outras pessoas.
Na realidade, o que quero tratar nesse post é sobre o traço, na minha opinião, mais marcante dessa geração, que é a individualidade, mas não somente isso, também solidão, eu diria que o assunto está entre esses 2. Acho que os fones de ouvido caracterizam bem tudo isso:
Acordo 7h da manhã e faço meu café. Como em casa, a única companheira é a televisão, que só ligo para isso. Antes de sair, coloco os fones e mp3. No elevador, cruzo com uma senhora que fala – Olá. – Bom dia, retruco. Nada mais.
Passo pela guarita do prédio. O porteiro, que nunca soube o nome, me olha nos olhos. Não digo nada, apenas continuo. Caminho 2 quadras e chego à academia. Na recepção, há 2 recepcionistas. Não falo nada. Saco a carteira de aluno e passo na catraca. Faço o tal do alongamento enquanto espio as pessoas com a vertigem de imagens formadas por espelhos colocados em frente aos outros.Percebo o professor da musculação. Falo com ele a cada 3 meses para troca do meu treino, também não sei o nome dele. Divido o espaço com pelo menos 10 pessoas, tirando aquela menina que é a fim do professor, ninguém conversa com ninguém.
2 horas depois, estou pronto para ir trabalhar. Pego o carro, que fiz questão de colocar o insufilm mais forte que consegui (85%) e dirijo até o meu trabalho. Fecho as janelas, me tranco. Com excessão do vidro da frente, não há brechas na minha fortaleza. Tiro o fone de ouvido, ligo o rádio que tocam minhas mp3s. Durante o trajeto, há alguns moleques e vagabundos que vêm tentar limpar o vidro do meu carro. Depois de muitos anos de não, acho a maneira mais eficaz de fazer eles irem embora. Olho para a frente, para o infinito, finjo que não existe ninguém do lado de fora do meu carro tentando contato. Pronto.
Chego ao trabalho, passo por uma portaria, e na catraca uso meu cartão para liberar o acesso. O elevador sobe cheio, como em qualquer prédio comercial. Metade olha para o teto, a outra para o chão. Eu olho por entre as pessoas por meio do espelho no fundo do elevador. Vejo sombras, eu, e um fone de ouvido.
Entro no escritório, minha sala é a primeira. Hoje não estou com paciência para ouvir as pessoas, entro direto na sala e fecho a porta. A primeira providência é ligar o msn do trabalho e alternar nos primeiros 10 minutos offline e online, para meus chefes perceberem que já estou trabalhando.
Logo depois, entra meu assistente. Ele me cumprimenta com cara de sono e logo percebe que estou naqueles dias. – Abre o meu trânsito, tem um código que preciso que você limpe até o almoço. É a única coisa que falo, não tiro os fones de ouvido, nem pauso a música.
Quando chega 12h, o escritório começa a ficar agitado. Os grupinhos para o almoço são formados, e meu assistente vai com o pessoal de TI. Por msn, digo que preciso terminar um trabalho e não posso sair. Mentira. Quero ir almoçar mais rápido indo sozinho para sair mais cedo da labuta.
Quando todos já almoçaram, saio. Gosto de ir a um kilo que tem um corredor fino, onde sento na última mesa, sozinho. – Deu 12,58 mais 2,50 do refrigerante. Estendo o meu cartão.
De volta ao escritório, passo outro job para meu assistente, assim ele não me enche até o fim do dia. Não gosto dele, está na cara que não gosta de trabalhar, como qualquer estagiário. Escolhi mal, mas nunca parei para conversar com ele, aliás, nem lembro mais qual a faculdade que ele está estudando.
Saio do trabalho, pego o carro, vou para um curso de extensão que a empresa está pagando – é programação C#, enfadonho. Na minha classe só tem homem. Não conheço ninguém, não sei nem os nomes dos professores. Entro na classe, vou até o fundo e me sento. Anoto o blá blá blá sobre programação enquanto sonho que estou em casa fazendo outras coisas.
O professor avisa do intervalo de 20 minutos. Por um momento, me sinto atraído por um grupo na classe que conversa sobre futebol. Ahh, preguiça. Desço até a lanchonete, onde leio meus emails e outras coisas da internet pelo meu celular.
A aula termina, tiro o fone, entro no carro, fecho as janelas, ligo a chave. Tenho a preocupação de não parar emparelhado janela com janela com outros carros no semáforo, é desconfortável.
Chego em casa, preparo meu jantar e como lendo um texto na internet. Levanto, tomo banho, deito na cama. Acabou o dia. Configuro o despertador para as 7h.
Esse foi um dia na vida de alguém da Geração Ipod, não sou eu ;-). Evidentemente, exageradíssimo.
A questão é: você se identificou com alguns pontos do personagem? Eu me enquadro em alguns, como a preguiça de ouvir as pessoas alguns dias, cuidado para não emparelhar o carro no semáforo e a conversa burocrática nos elevadores.
Mesmo que dê no notíciario que as pessoas compram insufilm para aplicar nos carros por causa da violência, acredito que nao é somente isso. Tudo o que levantei na história, tem a ver com a nossa vontade de individualidade.
Depois de descrever o dia na vida desse infeliz, olhei por cima e percebi que a música está na maioria dos momentos. E isso é uma inversão de valor, pois a música sempre teve o intuito de reunir as pessoas, e não de individualizá-las. Às vezes sinto falta da época que você ia na casa dos amigos para ouvir música, quando discos não eram tão acessíveis.Lembra da última vez que trocou ou emprestou um CD de música para algum amigo?
Uma das coisas que aprendi viajando foi que o mundo fora do burburinho das grandes cidades ainda não é 100% digital. Você não consegue fazer as coisas sem ter de parar, conversar, pedir ajuda aos outros.
Essa é a grande diferença entre viajar como turista e como viajante. O turista compra um pacote fechado, e antes de viajar, recebe por email fotos e cronograma, horários, preços, tabelas, TUDO. Não há imprevistos, e não há deslumbramento ou estranhamento, o turista simplesmente segue o plano de viagem.
Geralmente, turista fica em hotel, e hotel nada mais é uma construção totalmente fora do contexto do resto da cidade (rs). Dentro do hotel, o turista não vai experimentar as comidas da região, pois o chef fez faculdade em São Paulo e alguns cursos na frança. Não vai conhecer pessoas da região, pois no hotel só tem turista, não vai aprender nada de novo, e pior, quase não vai ter contato com a cultura que escolheu como destino de viagem.
O viajante, não necessariamente precisa andar com uma mochila gigante nas costas, mas esse confia nas pessoas. Chega ao local e pergunta onde que dá para dormir, e talvez com sorte, recebe um convite para dormir na casa de algum nativo, jantar com sua família, comer prato típico, ouvir histórias, aprender a sua cultura.
Pedir ajuda para alguém é também um ato de confiança, e de humildade. O seu celular não vai resolver sua fome em uma praia de pescadores longe de tudo, é bem por aí.
Não precisa ir muito longe, afastado de tudo para sentir a diferença na atitude das pessoas. Das 2x que fui ao Paraná senti um contraste gritante nas gentilezas, e mesmo em São Paulo, é só sair da cidade e cair em uma praia que não foi invadida por cimento e carros.
Fato: cada vez vão menos pessoas nas festas de aniversário, é muito mais fácil dar parabéns pelo orkut.
Enfim, acho que isso rende um muro de texto, e não é muito conveniente para ler pela internet. Caminhamos para um mundo totalmente virtual, e cada vez acho mais escroto. Então da próxima vez que for enviar um parabéns pelo aniversário de algum amigo pelo orkut, tente sair de casa, ir até ele e dar um abraço, bom, pelo menos um telefonema ;-).