Malandragem dá um tempo: Lei de Gérson

De Macunaíma, o antiheroi sem caráter de Mário de Andrade, passando por Zé Carioca e a Lei de Gérson: afinal, somos mesmo malandros? Essa questão foi respondida de várias formas. Intelectuais, sociólogos, políticos, formadores de opinião, todos deram sua contribuição para o que parece ser irrespondível.
Dentre as respostas, uma das mais plausíveis que já li foi uma que saiu na revista Época, que falava sobre a "...necessidade de uma nova definição do que era ser brasileiro, tema pulsante na década de 20, quando os imigrantes contribuíam para um novo perfil de nação. A convicção era de que a mão-de-obra importada era muito melhor que a nacional. Alguns estudiosos defendiam que dos escravos havíamos herdado o horror ao trabalho e dos índios um talento especial para a preguiça. É desse cenário que surge a compreensão da força da malandragem, uma espécie de contraponto ao exército de trabalhadores dedicados e produtivos, que primeiro a agricultura e depois a indústria tanto necessitaram para competir no mercado internacional. Os malandros passaram a fazer parte do imaginário de um país de alma escravista como uma espécie de resistência ao modelo europeu cheio de regras."
De toda essa herança social, chegamos finalmente ao ano de 1976, quando a publicidade usa um grande jogador de futebol para brilhar no anúncio do cigarro Vila Rica:

Gérson de Oliveira Nunes foi apenas o garoto-propaganda, mas acabou virando mais que isso depois da campanha. Em tempo: o jogador afirmava no comercial para TV: "É gostoso, suave e não irrita a garganta", "Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro?" e Gosto de levar vantagem em tudo, certo?".
No final das contas, poderia ter passado batido, mas não foi o que aconteceu. Como se tivesse acertado em uma ferida não cicatrizada da sociedade, essa campanha foi satirizada, e seu garoto-propaganda crucificado. A Lei de Gérson estava criada. Na época, virou piada, e sempre que acontecia alguma situação digna de "malandragem", as pessoas lembravam da lei, que basicamente era levar vantagem em tudo, mesmo que isso não seja ético.
Como sabemos, é comum a publicidade utilizar-se de figuras públicas, como jogadores de futebol, e -principalmente- de traços sociais em determinada sociedade. É por isso que a publicidade é regional. Quem criou o conceito da campanha do Vila Rica, sacou que somos malandros mesmo (rs).
De todas as reações, a gente escolheu ironizar, um traço comum do brasileiro, o que alguns afirmam ser pura criatividade. De qualquer forma, a reação foi negativa, e isso é importante.
Bom, no segundo episódio dessa discussão (primeira parte aqui), já vimos que não queremos ser malandros. Falta então, atitude para mudar. Pretendo escrever um último post sobre isso finalizando o assunto.
PS: O jogador, posteriormente, afirmou publicamente ter se arrependido de ter participado da campanha
Vídeo do comercial:



April 15th, 2009 - 13:36
Belo texto!!!!
Quando se fala de brasileiro duas frases vem a minha mente!
E basta que eu me lembre delas para ficar todo arrepiado:
- Eu sou brasileiro… com muito orgulho… com muito amor!
e
- Sou brasileiro e não desisto nunca!
É só nos remetermos ao passado e veremos que desde a nossa colonização o povo brasileiro sempre carregou com unhas e dentes o país. Somos filhos de senzalas e dias sofridos… e não existe nesse sentido alguém que tenha trabalhado tanto quanto o povo brasileiro. Por causa da escravidão o trabalho foi por muito tempo tido como uma atividade degradante e muito demorou para que pudéssemos reverter essa situação.
Hoje somos uma mistura de povo raçudo e pessoas de garra.
Malandros? Sim, no sentido de que sabemos nos virar, sabemos como contornar as advercidades utilizando a criatividade para resolver problemas que o dinheiro, que não temos, não pode resolver?
Malandros? Não, na questão de uma minoria que se vê tentando levar vantagem e buscando o famoso “dinheiro fácil”!
Sou brasileiro… com muito orgulho… com muito amor. Não desisto nunca… de verde e amarelo pintado no coração!