Mudanças

Há um tempo atrás comprei uma planta. Na loja, estava em uma espécie de atrium recebendo a luz do Sol de cima. Escolhi uma planta que me lembrou a lótus de 1000 pétalas, que é a imagem vista quando chega em um estado X da meditação
. Não, eu nunca cheguei nesse estado (rs).

Como moro em apartamento, acabei colocando a bendita cuja no banheiro ao lado de uma janelinha para pegar um pouco de Sol. Depois de uns dias notei que a planta tinha se mexido em direção à luz. Imagine essa lótus acima crescendo pra cima, ganhando altura e depois se curvando para um lado (rs). Não contente, inverti ela de lugar. Deu alguns dias e ela se entortou toda para receber na parte de cima das folhas a luz do Sol.
Isso me fez refletir sobre as mudanças em nossa vida. Como na planta, que teve que se adaptar quando o meio em que vive foi modificado, acredito que a gente tem que mudar todo dia, sempre. Talvez as nossas mudanças não sejam tão radicais que foi para a planta, mas sim, nos modificamos diariamente.
Lembro de ter lido uma vez, um conto sobre um velho que tinha como hobby plantar árvores, porém ele não as regava. Dessa forma, nenhum vestígio de planta subia do solo seco.
Os meses foram se passando e ele semeava o mesmo solo, mas não regava as sementes com água. Até que um dia, uma das sementes venceu e começou a crescer, rompendo o solo seco em direção ao Sol.
Um menino que via tudo isso da casa ao lado, incrédulo, resolveu perguntar a razão dele não regar as suas plantas. A resposta do velho foi que dar água assim, fácil, ia criar um jardim de plantas fracas, que não iriam aguentar mudanças graves. E complementou: -essa que está crescendo, não recebeu água de mim. Ela foi buscar com suas raízes, esticando-as mais que todas as outras, e chegou tão fundo que encontrou água para sobreviver. Essa planta tem raízes muito profundas, e nada vai derrubá-la tão facilmente.
Depois de centenas de anos pelas mãos dos agricultores, as sementes foram condicionadas a não precisarem mais esticar profundamente suas raízes. Como no conto do velho, demorou até encontrar a semente que foi o ponto de partida para a mudança. E desta planta, nascerão outras, mais fortes e adaptadas ao solo seco do jardim do velho.
Pense da seguinte forma: quantas vezes você já mudou de ideia a respeito de alguma coisa? A coisa pode ser em relação à relacionamentos, comida, trabalho, tudo (rs).
Eu já mudei demais, especialmente os pré-conceitos que a gente aprende na escola. O mundo gira em uma velocidade estonteante. O que é importante hoje, pode não ser amanhã, ou no próximo final de semana.
Para ser sincero, faz uns anos que ando passando por uma mudança radical, não só em conceitos, mas em valores, que com certeza são mais profundos e difíceis de serem modificados.
O que mais me motivou a mudar, foram ações que não tenho controle. São como nos casos das plantas que contei acima. Eu simplesmente tive que mudar.
Às vezes presto atenção nos mais velhos, e vejo que muitos pararam no tempo. Usando um exemplo, podemos lembrar do computador e internet. É um bicho de 7 cabeças para os velhinhos, e olha que eles são de certa forma obrigados a usar, pois tudo hoje depende dele. Trabalho, imposto de renda, bancos, investimentos, tudo.
Olho mais fundo e percebo que há um orgulho besta por trás dos velhinhos. Eles não querem mais mudar, estão cansados de uma vida de mudanças. Conheço um velho que está esperando o mundo se adaptar a ele (rs).
Da minha reflexão, acho que o mais interessante é estar aberto às mudanças. São elas que nos levam para cima, ou nos afundam em crises, mas são elas que dá sentido à vida. Sem isso, acho que metade aqui já teria morrido de tédio antes dos 20 anos (rs).
"Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar" (Paulinho da Viola)
Só por favor não interpretem isso como destino. Acredito que o destino quem faz somos nózes
.



October 15th, 2009 - 10:03
Murilo, adorei este post, me lembrou um texto de Rubem Alves que fala sobre mudanças, não sei se já ouviu falar, se chama “Pipoca”, é mais ou menos assim:
Fico pensando se fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.
Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
“Morre e transforma-te!” — dizia Goethe.
A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira…
“Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu”.
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Pois é, algumas pessoas passam pelo fogo e não mudam, continuam as mesmas, eu tenho pena quando vejo alguém falar “Mas eu sou assim, sempre fui nunca vou mudar” coitada penso eu, essa daí é mais uma daqueles milhos de pipoca que não estouram. Já passei por muitos “fogos” desses, internos e externos e sair deles a mesma coisa deles é deixar de progredir.
October 15th, 2009 - 11:47
Belo texto!
Vejo um jovem, que de velho tinha o pensamento, se tornar velho no tempo, mas cada vez mais jovem em seu espírito!
Quanto ao movimento da planta… se chama fototropismo positivo. Boas aulas eram as de ciência na escola (que saudades!). Mas não deixa de ser uma forma de adaptação às mudanças. É a necessidade de sobrevivência…
Seu texto é lindo, profundo.
Interpretar tudo isso olhando apenas uma planta que está no banheiro é digno de quem vive olhando para o sol.
Esse é o amadurecer da fruta, o desaborchar da flor, a transformação do garoto em um homem de verdade.
Assim devemos continuar, olhando sempre para o sol, aprendendo que as coisas mudam e que não estamos sempre certos.
Assim devemos remar, em direção ao sol, deixando os erros e nossas sombras sempre atrás de nós!
Keep writing!
October 15th, 2009 - 12:33
Interpretar tudo isso olhando apenas uma planta que está no banheiro é digno de:
autista, desempregado (adicione aqui)
ahhahahaha
[]´s
October 15th, 2009 - 21:01
bem legal esse texto !!! tem tudo a ver, mas escrito melhor rs !
[]´s