blog re'cordis
2Jun/082

Sobre livros, educação e professores sem noção

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Li uma nota no bluebus sobre a pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’, feita pelo IBOPE por encomenda do Instituto Pró-Livro, que indica que 55% dos brasileiros lêem livros. A realidade é óbvia, mas isso me fez pensar nos porquês e questões que envolvem este número.

Pra começar, faça a seguinte conta: pegue esse número e subtraia quem mentiu na entrevista por vergonha, subtraia quem acha que folder de pizzaria e bula de remédio é livro, e, ah, não esqueça os estudantes que são obrigados a ler. O resultado real seria algo como "maioria no país não lê livros" -hipótese de manchete em jornal popular.

Segundo a nota, os culpados por isso são a falta de hábito de leitura e o preço dos livros. Além disso devemos levar em conta os chamados analfabetos funcionais, pessoas alfabetizadas mas que não conseguem interpretar textos longos, muito menos figuras de linguagem. OK, concordo com tudo isso, mas vou seguir um pouco adiante na questão "falta de hábito".

Lembro da época da escola (escola mesmo não colégio), quando todos os anos os professores conseguiam o milagre da leitura generalizada. Quem não lesse tomava bomba. Tinha 11 anos, e fui milagrosamente obrigado a ler Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Não entendi nada, e como sou teimoso, devo ter lido pelo menos umas 30 páginas até perder o interesse pelo livro. Pensei que fosse somente comigo, mas no dia combinado de discutir a leitura em sala de aula, tinha rodinhas de estudantes e buchichos pra todos os lados da escola. Sabia que não era o encontro nacional dos adoradores de Guimarães Rosa. Ninguém tinha de fato compreendido o livro, e estavam com vergonha de entrar na sala de aula.

Hoje fico imaginando o que passou na cabeça da professora para indicar uma obra tão difícil. É como organizar uma excursão de estudantes de 10 anos pra ver mostra de arte abstrata, ou qualquer um desses artistas imortais e suas obras pouco acessíveis. Acredito que brincar com o cachorro que ajuda na segurança do museu seria mais interessante.

O incentivo à leitura deveria seguir outra abordagem, mais próximo da realidade dos estudantes. Para um moleque de 11 anos é muito mais interessante jogar bola do que ler algum título da coleção clássicos do vestibular. Também não adianta forçar a leitura. Isso só resulta em uma pessoa traumatizada que não consegue assimilar diversão e lazer com os livros. Palavras de um ex-traumatizado.

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Comments (2) Trackbacks (0)
  1. Pô, li essa matéria e fiquei indignada com a falta de leitura, mas aposto também que os números são ainda menores de leitores assíduos no Brasil…

  2. Realmente forçar uma criança a ler não é o melhor dos incentivos… O desafio está justamente em tranformar a leitura em algo interessante para uma criança, para que no futuro ela possa apreciar livros como Grande Sertão: Veredas ou Memórias Póstumas de Brás Cubas…
    Concordo com a Suzana, o índice de leitores assíduos no Brasil deve ser muito baixo mesmo. Porém acredito que isso seja um problema não apenas social mas principalmente cultural. Como você mesmo disse “Para um moleque de 11 anos é muito mais interessante jogar bola do que ler algum título da coleção clássicos do vestibular” assim como para um adulto é mais interessante assistir um jogo de futebol do que ler um bom livro.
    Brasil, o país do futebol!


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